Investigação de criptomoedas: A nova fronteira do crime organizado

Mariana Batista e Rafael Velasquez • 8 de maio de 2024

A atuação cada vez mais efetiva da segurança pública com o objetivo de desmantelar o crime organizado, através da execução de diversas operações realizadas no Brasil, apresenta um cenário que pede fiscalização, atenção e controle: organizações criminosas estão ampliando a migração de suas atividades para o mercado de criptoativos.


A lavagem de dinheiro é um assunto que preocupa não só órgãos de segurança pública como também grandes agências de inteligência ao redor do mundo. Com o surgimento das criptomoedas em 2008, os criminosos enxergaram um modo de “inovar” no crime organizado, elegendo novos artifícios de ocultação e branqueamento de capitais. A falta de regulamentação efetiva para o uso de criptoativos parece criar junto ao crime organizado uma sensação nova de facilidade para a lavagem de dinheiro.


Para tornar ainda mais complexo o trabalho das instituições envolvidas na segurança pública, algumas exchanges não exigem informações de cadastro dos proprietários e muitas transações são realizadas em exchanges fora do Brasil, o que dificulta ainda mais a apuração de informações que possam identificar uma determinada carteira.


No entanto, existem soluções que permitem a investigação e análise das carteiras e blockchain.

Combate à corrupção e ao crime organizado

Com o avanço da tecnologia, as instituições financeiras colocaram à disposição de seus clientes movimentações nacionais e internacionais mais impessoais, ágeis e confidenciais - que acabam dificultando o trabalho de investigação das autoridades. Tornou-se necessária, então, a adoção obrigatória de políticas de compliance pelas instituições como forma de cooperação privada na apuração de tais crimes.


O tema da corrupção na administração pública nunca esteve tão em voga como nos últimos tempos. Seja pela definitiva sensibilidade de seus impactos na política e na economia, seja em razão de pressões internacionais. É indiscutível a importância de se revisitarem os mecanismos pelos quais o Estado se organiza para enfrentar e reprimir determinados comportamentos de agentes públicos e privados. Agentes que, beneficiando-se de capital público, impõem a deslegitimação de decisões políticas, atos e contratos administrativos perante a sociedade. Ações que geram danos para o desenvolvimento do país, segundo os objetivos fundamentais do artigo 3º da Carta Federal (construção de uma sociedade livre, justa e solidária; garantia do desenvolvimento nacional; erradicação da pobreza e marginalização; redução de desigualdades; promoção do bem comum).


No Brasil, a prevenção e o combate à lavagem de dinheiro possuem base legal estabelecida na Lei Federal nº 9.613/98, posteriormente alterada pela Lei Federal nº 12.683/12 e pelo Normativo SARB nº 11/13.


A Lei nº 9.613/98 - Lei de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores, criou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), sob comando do Ministério da Fazenda. O ato conferiu ainda maior responsabilidade a intermediários financeiros e econômicos, mas com a atualização pela Lei nº 12.683/12 a legislação ficou mais rigorosa. 


Em 2013 foram publicadas a Lei Federal nº 12.846/13 - Lei Anticorrupção, e a também Lei Federal nº 12.850/13 - Lei do Crime Organizado. São regulações que oferecem dispositivos capazes de aperfeiçoar a prevenção e o combate à lavagem de dinheiro no país. Em 2016 o Brasil ganhou uma lei que regula o crime de financiamento do terrorismo, a Lei Federal nº 13.260/16.


Já a Lei Federal nº 13.964/19, instituição do pacote anticrimes, aperfeiçoa a legislação processual penal, inclusive descrevendo em detalhes o processo de cadeia de custódia nos artigos 158-A a 158-F.


Recentemente, em Dez/2022, foi promulgada a Lei Federal nº 14.478/22 que tem como objetivo principal regulamentar a prestação de serviços de ativos virtuais. Apesar de apresentar evoluções, a Lei nº 14.478/22 – norma que busca regulamentar o setor de criptomoedas no Brasil, entrará em vigor somente no segundo semestre de 2023, após decorridos 180 (cento e oitenta) dias de sua publicação oficial. Ou seja, por ora ainda não há regulamentação ativa no Brasil, o que dificulta muitas vezes o trabalho de investigação e acaba por facilitar a ação dos criminosos.


No Brasil existe uma iniciativa da ABCripto – Associação Brasileira de Criptoeconomia, que tem por objetivo difundir boas práticas com um código de conduta e autorregulação. A proposta da ABCripto ajuda, entre as empresas do mercado de criptoativos, na organização e padronização da atuação e prevenção à lavagem de dinheiro.


À margem das evoluções autorregulatórias ou boas práticas, estão as organizações criminosas que buscam incessantemente formas de ocultar recursos oriundos de práticas ilícitas. Novas ações criminosas motivam maior investimento em tecnologia e capacitação por parte dos órgãos de segurança pública. Nos últimos anos está cada vez mais frequente a investigação de criptomoedas no Brasil. Aqui citamos algumas operações que ilustram o cenário: Operação Kryptos (PF), Operação Black Monday (MPMG e MPPE) e Operação Golden Greed (PF). Com todas as facilidades do universo de criptoativo fica muito evidente a “brecha” que o criminoso encontra para realizar transações sem levantar muita suspeita. Baseado na crença de que a criptomoeda não deixa rastros, é possível perceber um aumento significativo do uso de criptoativos no crime:


Fonte: The 2022 Crime Report - Chainalysis


Com todo esse crescimento as agências precisaram “olhar” para o mundo de criptoativos aliado às tecnologias existentes, para buscar novas formas de investigação de um universo tão novo. 

Tecnologia aplicada no combate à lavagem de dinheiro

Com a tecnologia disponível hoje, através de informações das Blockchains, é possível conseguir dados que auxiliem os investigadores a encontrarem o caminho do dinheiro, além de criar vínculo entre as carteiras possibilitando uma análise mais ampla do dinheiro transacionado.

“Ainda que não seja descoberto de imediato, a quem pertence cada endereço disposto na blockchain, com o uso de alguns métodos de investi gação essas informações são verifi cáveis”, afirma o autor do livro “Bitcoin e Lavagem de Dinheiro”

É uma tecnologia que permite uma grande transação, de forma muito mais rápida, “anônima”, eficiente e descentralizada. Ou seja, é possível enviar dinheiro para o outro lado do mundo de um jeito muito simples e sem regulamentação.


E como investigar algo que até então era anônimo? É aí que entra a tecnologia aliada ao trabalho dos investigadores tornando possível a apuração destes criptoativos.


Atualmente, o mercado dispõe de soluções que permitem às agências de forças de lei realizarem investigações e apurações de responsabilidades, a partir da rastreabilidade das transações.


Podemos citar como recursos das principais soluções de mercado:


  • Permitir a identificação de criptoativos analisando o blockchain;
  • Fornecer, em tempo real, o nome da exchange responsável pela administração dos endereços dos criptoativos;
  • Fornecer, em tempo real, os endereços de protocolo de internet (IP address) e a respectiva localização geográfica aproximada;
  • Permitir pesquisa offline, visando manter o sigilo das requisições realizadas em
  • investigações policiais;
  • Disponibilizar saldo atualizado, consulta por datas, busca automatizada de informações em fontes abertas, data e horários de atividade dos endereços dos investigados.


Assim, podemos colher os benefícios das investigações:

  • Provando a origem do dinheiro no processo;
  • Possibilitando a identificação do caminho do dinheiro;
  • Permitindo que o investigador aponte os vínculos identificados.


Com os dados mais estruturados, acreditamos que é possível encontrar as provas de origem ou destino ilícito do dinheiro, tornando viável realizar a apreensão de criptoativos em exchange.

Considerações finais

Apesar da evolução na apuração de crimes envolvendo criptoativos, é preciso avançar ainda mais em termos de capacitação dos profissionais envolvidos para suportar melhor as investigações das agências de forças de lei. É preciso também estabelecer acordos internacionais de cooperação bem como uma regulamentação do mercado em

outros países. A tecnologia, conforme citado no artigo, é uma aliada no combate à criminalidade e cada vez mais avançará no objetivo de dar celeridade às investigações, mas principalmente seguindo à risca a legislação vigente.


É preciso a união entre os entes privados e públicos para que haja capacidade de identificar e punir quem utiliza criptomoedas para a prática de ilícitos. Somente a partir da cooperação e alinhamento de esforços é que aumentaremos a chance de êxito nas operações e na repressão da criminalidade, principalmente a organizada.

escrito por Mariana Batista

Gerente de Contas da TechBiz Forense Digital

Rafael Velasquez

CEO da TechBiz Forense Digital

Você pode gostar de

Por Techbiz Forense Digital 31 de março de 2025
Vitória Regina Sousa, 17 anos, desapareceu em 26 de fevereiro de 2025 e foi encontrada morta uma semana depois, em Cajamar (SP). O caso mobilizou a Polícia Civil do São Paulo, que contou com tecnologias avançadas de investigação digital para identificar o autor do crime.
Por Techbiz Forense Digital 24 de março de 2025
Chainalysis, Cellebrite e TechBiz Forense Digital unem forças para levar ao setor público brasileiro soluções integradas de inteligência digital, análise de blockchain e investigação forense de criptomoedas.
Por TechBiz Forense Digital 19 de março de 2025
A transformação digital tem sido um pilar essencial para a modernização das investigações forenses, e a nova atualização do MD-VIDEO AI representa um salto significativo na análise de evidências em vídeo. Agora equipado com busca facial aprimorada, restauração facial e reconhecimento avançado de placas de veículos, o software redefine a eficiência das investigações criminais, oferecendo uma precisão sem precedentes na identificação de suspeitos e na retenção de informações críticas. Inteligência Artificial a Serviço de Investigação Criminal A análise de vídeos sempre foi um dos desafios mais complexos para as forças de segurança. Uma grande quantidade de material a ser revisado manualmente e a baixa qualidade das imagens muitas vezes dificultam a obtenção de evidências confiáveis. Com a integração de IA avançada, o MD-VIDEO AI não apenas automatiza esse processo, mas também potencializa a capacidade do pesquisador de identificar e rastrear elementos-chave com rapidez e precisão. As novas funcionalidades colocam a tecnologia um passo à frente na denúncia de cenas criminais, eliminando gargalos investigativos e permitindo que as autoridades ajam com mais assertividade. Busca Facial: Encontrando Suspeitos com Precisão A nova funcionalidade de busca facial do MD-VIDEO AI otimiza a identificação de indivíduos em vídeos de segurança, eliminando a necessidade de revisão manual quadro a quadro. Pesquisa baseada em imagem: O pesquisador pode carregar uma foto de referência e o sistema analisará o vídeo para encontrar possíveis correspondências. Filtragem inteligente: A IA permite refinar pesquisas usando filtros baseados em análise forense. Processamento massivo de dados: com tecnologia avançada, a análise de vídeos extensos acontece em uma fração do tempo necessária nos métodos convencionais. A velocidade e precisão desse recurso são essenciais para acelerar investigações e identificar suspeitos antes que as evidências se percam. Restauração Facial: Recuperando Detalhes Antes Indiscerníveis Muitas investigações esbarram em imagens de baixa qualidade que impossibilitam a identificação visual de suspeitos. O recurso de restauração facial do MD-VIDEO AI soluciona esse problema, possibilitando o aprimoramento aprimorado de rostos a partir de imagens degradadas. Reconstrução a partir de múltiplas capturas: O sistema compila diferentes frames de vídeo para criar uma imagem mais nítida do rosto. Aprimoramento de detalhes: elementos que antes eram invisíveis, como cicatrizes ou expressões físicas, agora podem ser recuperados. Auxílio na identificação de suspeitos: Mesmo imagens borradas ou distorcidas podem ser reconstruídas para uma análise mais precisa. Esse avanço fornece uma nova perspectiva para casos em que as evidências visuais eram limitadas, aumentando as chances de identificação correta e causando erros investigativos. Aprimoramento no Reconhecimento de Placas de Veículos Além da análise facial, o MD-VIDEO AI também recebeu melhorias no reconhecimento de placas de veículos. Essa funcionalidade é crucial para investigações que envolvam rastreamento de suspeitos ou identificação de veículos usados ​​em crimes. Maior precisão na leitura de placas mesmo em baixa qualidade Capacidade de identificar placas parcialmente visíveis Integração com bancos de dados para intervalos de informações Com essa tecnologia, o pesquisador pode mapear posicionamentos, reconstruir trajetórias e conectar evidências de maneira mais eficiente. Impacto Direto na Resolução de Casos As novas funcionalidades do MD-VIDEO AI já estão sendo aplicadas em investigações reais, proporcionando redução no tempo de análise, aumento na taxa de identificação de suspeitos e maior assertividade na coleta de provas. Desde homicídios até fraudes e sequestros, essa tecnologia se tornou uma estratégia diferencial para forças de segurança públicas e agências de investigação, garantindo que nenhuma evidência visual passe despercebida.
Share by: